domingo, 4 de junho de 2017

Enlatados

Os postes de iluminação lambuzavam o ar úmido com uma gosma de luz branca. Branquinha e espessa como uma pasta, uma que está recheada de insetos pequeninos que nadam por espirais de ralos invisíveis, onde decantados, no fundo falso de um pote sem paredes Civilização©, alguns humanos rastejam, escorregando por dentre casas, prédios, lojas e fabricas, alguns caminham e uns voam, enquanto outros, fazedores de coisas sem forma conceitual, fazem essas coisas. Havia também uma placa, do tamanho de uma geladeira de família, abraçada a dois postes que cuidavam de um espaço separado por uma vértice, o ponto cego da entrada triangular - "Conselho de Politica de Bairro" -, na base do triangulo estava uma casa, e era ali que as pessoas se reuniam para tratar urgências que afetassem a todas elas. Coisas como invasão de pestes, revoadas de sonhos pontudos, comemorações de por do sol melífluo e climas intensos ameaçadores.



                                        O mundo depois da base

Em pé, de peito protuberante numa pose de firmeza, apontando para um nada dentro de uma frase pressurizada, o homem com o chapéu de anfitrião do instituto atuava o seu papel, investindo suas melhores habilidades:
- Olhem, vejam bem!-

                           O mundo, a ponte e o mundo

Os gêmeos Ana e André seguraram o riso, até que logo em seguida passou um veiculo de sirenes ligadas, causando alvoroço. O alvoroço era bobo e animado, do tipo relaxado e com rodinhas e pernas saltitantes, empenhadas em escorregadios ventosos como a respiração de um pesadelo sob a papelada do escritório. Depois de o alvoroço entrar pela janela, esbarrou nos gêmeos, que soltaram o riso quando a surpresa alcançou os braços, e até a pasta de documentos da coleta de informação dos recursos de reparos soltou-se - junto do papel de tesoureiros do valor cívico. Um riso de dois corpos em meio a um alvoroço de tantos outros. No veículo estava Anelia, como prometido no piquenique de três anos antes. No de 2 anos e oito meses, no da próxima semana, e em infinitos outros que aconteceram, inclusive antes desse momento. Agora o anfitrião se revelava como apenas a introdução de um fluxo de gargalhadas gêmeas, que afloravam naquela noite, como figurinhas de colecionador do envelope rasgado - finalmente. "Eu juro que ainda provo por mim mesma que essa papelada, e esses crachás e essa pomposidade são parte de uma peça circense a céu aberto, e cada pedacinho dessa peça será uma bolinha colorida desenhando círculos no ar que o malabarismo respira..." - "...Ouvi falar que um velhinho os enganou usando uma mangueira enrolada no pescoço com a ponta amarrada no cinto de cipó, entrou na sala dos chefões da coisa toda e de lá trouxe o melhor licor que a reunião geriátrica dos sábados já bebeu" - "... Outro dia, no incêndio da rua 8, proibiram eles de salvar o edifício porque o crachá estava sujo de queijo! Alterava a leitura, e os equipamentos ficavam travados!" - e agora, girando um laço com os braços pra fora do veículo - suspensório dos motoristas- , de charuto na boca e sirene ligada, Anelia acelerava, dava meias voltas, freiava acrobaticamente, enlaçava os passantes, e corria por ai.

A aba do chapéu, forrada com uma chapa de um metal polido, era quadro do reflexo da expressão de perplexidade e irritação do anfitrião, que pensava estar ordenando ao anfitrião substituto que as janelas fossem encobridas e que as lampadas fossem apagadas, seu discurso era a única coisa a brilhar naquele lugar e naquela hora. Mas não. Aquele lugar já não mais era o lugar dos anfitriões. Nem dos tesoureiros, ou dos civis, quanto menos dos discursos. Aquele lugar, era "lugar nenhum de porra alguma" ou apenas lugar, assim como tudo. Havia risos, surpresa e tensão. Como abaixo, este é o motivo pelo qual estas palavras estão aqui, meio caindo e meio levantando.
De frente para a parede com a janela por onde a imagem de Anelia surgia dentro do concelho, havia outra parede, e foi acompanhando ela que uma figura esfumaceada pelo sombreado que habita os cantos se foi, sorrateiramente, de encontro ao telefone. As sombras pareciam uma camisa de força tentando imobilizar um riso louco e agitado, montado em um trejeito confeccionado por linhas de sagacidade e agulhas de critérios, dentro de uma carroça que passava por uma estrada de pedras.

Denilson, aquele que trás a encomenda

Estranhamente, a história que aqui estava escrita desapareceu, mas tudo indica que em pouco tempo ela retornará ao seu devido lugar. 

Olha, já escrevi cinco. Cinco continuações. Sempre começo a escrever por aqui, então, este é realmente o lugar onde estes textos acontecem. Cinco. Oi? Sim. Consegui perder todas elas. Se alguma entidade esta tentando me mandar um sinal, deve estar frustrada, porque só considerei essa possibilidade agora, pelo menos se a minha suspeita sobre manifestações físicas serem algo difícil para estas formas de entidades (essas dos sinais)... Enfim, vou postar isso antes que perca. Já não garanto que a história retorne. K.O.

-Notação de trajeto: A de 1 a 4 completo. B, 1 e 3 cancelados, entrar em contato. 2 e 4, a caminho- "clic"

O colar de luzes formado pelos postes ao longo da estrada que ligava os trechos habitados da cidade, esborrifava pelo caminho pequenas portinholas para o passado, onde, por diversas vezes, Denilson fizera este mesmo trajeto. Todas as portinholas o levavam para os fins de tarde.






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